Corria o ano de 2005 D.C. ainda no seu primeiro semestre, quizas, primeiro trimestre...
...O festejo da mudança de ano tinha sido passada com um fuso horário GMT +1:00h. Madrid foi pela segunda vez consecutiva o local escolhido para o efeito.
O primeiro ano em que tal se sucedeu foi graças ao meu estado universitário, que me conferia o estatuto de aluno sob o programa de mobilidade interuniversitário Erasmus.
Este segundo foi levado a cabo por razões de um reencontro.
Tínhamo-nos separado por diversas razões. Importante era a distância que nos separava. Mais ainda as confusões para que eu estava claramente desperto e disposto a expor-me.
Estas razões existiram na minha cabeça por um período relativamente curto. Ou então, simplesmente... tive saudades!
Voltei a falar-lhe e levei-a ao nosso reencontro no reveillon madrileño.
As minhas palavras cândidas ressuscitaram o adormecido encantamento que hibernava no seu coração, desde há 3 meses atrás.
5 dias fantásticos correram-nos pelas mãos e pelos corpos, adoptados pelas alegres gargalhadas disparatadas de um ébrio sátiro amigo, pernoitando no seu habitat ardentemente calefaccionado. Foi a retoma dos velhos dias. O sorriso regressou ao seu rosto.
Eu estava convencidíssimo de que estava a fazer o que eu queria.
Era já Fevereiro. Voltei a visita-la no seu lar provisório da Europa Ocidental, onde já tinha passado o meu vigésimo quarto aniversário e virado o barco... tão literalmente quanto é possível. Aí planeámos o futuro próximo. Uma mudança crassa nas nossas vidas.
Iria deixar de viver com 2 pessoas para viver com 3. Ela era a terceira. O encantamento fê-la reprogramar a sua vida e fazer o seu estágio internacional obrigatório no extremo ocidente europeu.
Poderia ter projectado o seu futuro na sua mente e optado por qualquer via profissionalmente mais rica, estimulante e enriquecedora como Tokio, Estocolmo ou Londres.
Projectou-se emocionalmente sobre mim.
Viria para Lisboa. Viria para mim. Viria por mim.
Chegávamos a Abril. A primavera e todas as suas deleitantes propriedades estavam presentes, frescas e esvoaçantes, como ciclicamente se repetia a cada ano.
2001 - Porto capital da cultura projectara a construção da Casa da Música. Vicissitudes levaram a um retardamento de mais de 1000 dias e a um grande deslize financeiro, hoje bem conhecido e sobre o qual não terei qualquer necessidade de falar.
Este atraso, por outro lado, levou a que se enquadrassem circunstâncias benignas, ou não, no assunto em mão.
Conheci Vladislav Delay, pseudónimo do músico finlandês Sasu Ripatti, após conhecer um seu outro pseudónimo, Luomo, aquando da minha presença no estúdio da DSV em 2001, lá para os lados da Avenida da Liberdade, enquanto editava o meu primeiro documentário sobre RPG's. Rapidamente alastrei a minha alegre descoberta aos meus caros amigos. Grande fã, ficou de imediato o meu tão caro amigo Amílcar.
Soubemos, já não sei a que propósito nem em que contexto, da vinda de tão ilustre músico a terras lusas pela altura da inauguração do tão esperado edifício a que se dá o nome de Casa da Música. Não nos poupamos a esforços para programar a viagem que nos levava via férrea à cidade bela e cinzenta que se apelida de invicta, o Porto.
Iríamos passar o fim-de-semana na casa da minha querida amiga Magda na Maia. Ela, que eu havia conhecido por alturas do meu ano de estudos no estrangeiro, uma vez ser bela apreciadora de inovação sonora, era menina para gostar do louro nórdico Sasi, aka Vladislav Delay.
Distantes de qualquer outro motivo que não o prazer melómano, eu e o Amílcar embarcámos no Alfa Pendular que partia de Sta. Apolónia com destino traçado à estação da Campanhã.
Uma viagem pacata e suficiente para tudo: conversa, riso, descanso e outras boas coisas que amigos partilham quando o tempo se prostra diante deles sem que as obrigações mundanas os distraiam do relaxamento.
Uma acalentada recepção aguardava fora de portas da estação portuense.
Houve de seguida muita conversa entre mim e a minha querida amiga Magda, para actualizar o status das nossas vidas. O Amílcar contudo não era deixado de parte, embora não a conhecesse de todo. Ainda que um e outro já tivessem ouvido falar das suas existências.
Rapidamente, quase sem dar conta dos kilometros que nos passavam debaixo dos pés ou da rotação dos ponteiros sobre os nossos pulsos esquerdos, já nos encontrávamos na sua residência e de seus pais. Eu já conhecia a casa. Já lá havia passado noites bem divertidas, por alturas do nosso Erasmus, aquando das rápidas visitas ao Porto devido às festas da sua empresa, na altura ainda fictícia. Não era na baixa nortenha, mas o que não tinha de centralidade tinha em dobro de pacata.
Nessa mesma tarde, após a nossa chegada, foi-nos posta a pergunta:
"Tenho o compromisso de um jantar com as minhas amigas. Querem vir ou preferem qualquer outra coisa?", uma vez que o concerto que nos levara ao Porto iria decorrer nessa mesma noite.
Nenhum de nós se opôs. É sempre do agrado de um indivíduo conhecer pessoas novas e, apesar do meu desconsiderado estado civil, com uma namorada que em breve viria para Portugal coabitar comigo, é sempre simpático socializar com almas do sexo oposto.
Tendo disposto os nossos pertences na divisão que nos foi destinada como pernoitáculo, tratamos de nos aprontar para o jantar que em breve iria ter lugar na casa da Ana, uma das três amigas mais próximas de Magda. Não fizemos grande aparato, pois este evento foi-nos transmitido como um jantar informal, da corriqueira calça de ganga e pulôver.
Não tardamos a sair de casa e também num curto instante, rolando sobre as portentosas faixas da rede viária do grande Porto, chegámos ao destino, onde nos aguardavam 5 convivas.
A Ana, anfitriã e residente nessa mesma casa, o Francisco e o Hélio, a Frederica e a Raquel. Eu e o meu caro amigo Amílcar sentimo-nos um pouco embaraçados pois as raparigas estavam aperaltadas fazendo jus à reputação portuense no que respeita ao primor com que as mulheres se cuidam e se apresentam. De igual modo, regozijamo-nos com o deleite que alimentava a nossa visão e olfacto. Elas cheiravam bem. Todas elas de modo diferente. Cada uma fazia-se interpretar por uma fragrância que lhe encaixava na perfeição.
A Ana e a Frederica tinham namorado. O Francisco namorado da Ana e um ausente outro namorado da Frederica. O Hélder era um amigo, tal como a Raquel e a Magda, solteiros. Curioso também aqui era a mesma situação para o Amílcar. Um bom rapaz solteiro, preocupado em viver a vida e usufruir dos seus prazeres pessoais.
Ao correr do simpático jantar regado a gargalhadas e trocas de gozos regionalistas, entremeado com umas boas cervejas, fui-me apercebendo que se estava a gerar uma pequena congeminação na cabeça da minha amiga Magda e das suas amigas Ana e Frederica: fazer a "panelinha" para que aí tombassem a Raquel e o Amílcar.
Tomando consciência desta situação e, um pouco mais adiante na hora, sendo-me confirmadas as suspeições pelas palavras sorridias da minha amiga Magda, instiguei com subtileza masculina o meu caro amigo a redobrar a sua concentração no despertar dos seus sentidos e tomar uma diferente atenção nesta jovem mulher de tão grande bem-parecença.
Este amigo que comigo fez par sob a boa acomodação da Magda, é um rapaz que sempre teve uma perspectiva peculiar na abordagem e interacção com indivíduos do sexo oposto. Digamos que as coisas para ele "levam o seu tempo". No entanto, apesar de saber isto, nada me fez mudar de ideias e de o procurar levar ao encontro de uma maior proximidade com uma lindíssima jovem, tão cliché e classicamente loira de olhos verdes.
Era de facto uma mulher bonita e atraente e ninguém poderia, em circunstância alguma, dizer o contrário sem que a mentira lhe assolasse o espírito ao afirma-lo. Aliás, minto. Ela era lindíssima!
Apesar do comentário que acabo de proferir, eu estava mesmo era divertidíssimo e deliciado com o entretém que estava a ser o jogo de conseguir juntar estes dois recêm conhecidos. Mas mais ainda, ansiava pelo concerto e, de certa forma, alguma inquietude ia-se gerando em mim pois o tempo que distava do inicio do evento musical encurtava-se mas a distancia a que estávamos todos da Casa da Música não. E não era ao lado!
Já dispostos sob a magia de um Baco português dos tempos modernos, pronteamo-nos para sair com celeridade e rumar ao coração da cidade onde este novo edifício surge como uma nave de Vogons. Todo o caminho que aí nos levou, o tempo que tardamos e a conversa que pelo meio foi tida nada teve para mim de relevante, pois só mesmo o fito musical me espreitava a mente de modo catártico.
Não sendo o concerto o propósito desta história e apenas da viagem que despoletou uma situação, vou passar todo o seu relato para as mãos dos jornalistas e críticos musicais, bem como todos aqueles que queiram de igual modo ter uma palavra a dizer sobre o mesmo assunto, e adiantar esta crónica naquilo que lhe é fundamental. Contudo, não posso deixar de opinar sobre o alvo de tal empolgância da minha parte. Foi fenomenal. Tanto enquanto concerto como no que respeita a qualidade do som da sala nessa noite encetada... fenomenal.
As raparigas estavam, no entanto, bem mais divertidas com as suas conversas, entre as quais abordavam, por entre risos pueris, a união de qualquer coisa entre a Raquel e o Amílcar.
Nada que me espantasse pelo "género" que lhes acentava e pela prateleira da FNAC em que se podia encontrar um único exemplar de um álbum de Vladislav Delay. Situações antagónicas por definição.
Acabado o concerto, o ambiente festivo manteve-se e sempre presente estava uma cerveja ou um qualquer outro liquido embriagante. A linha do pensamento feminino manteve-se intacto ao longo do tempo que ali estivemos, sendo que, uma vez terminada a razão fundamental para a nossa presença nessa cidade, eu e o Amílcar juntámo-nos às demais, reembarcando na temática à volta da qual se estava a gerar o carácter da noite fresca que então corria.
Uma noite bem animada e com um sentimento de plenitude no que afinal nos levara a viajar de comboio. Finda esta, fomos para casa da nossa anfitriã Magda, onde eu e Amílcar partilhamos aposentos por essa noite de Sábado.
Como acontece com recorrência em circunstâncias semelhantes, passamos ainda um bom tempo em amena e animada conversa semi sussurrada, abordando os temas da noite: o fantástico concerto a que tínhamos assistido e "as miúdas"!... até que um de nós caiu nos sono que crescera dentro de si.
O dia ergueu-se solarengo. Após eu e o Amílcar nos tratarmos de modo bem matinal, culminando no aclamado "cimbalino" perto da casa da Maia, encontrámos a Magda que nos abriu a porta ao voltarmos e fazermos troar a campainha.
Nessa altura informou-nos que tinha combinado com a Raquel um lanche lá em casa para que o seu novo gato e o cão da Raquel se conhecessem. Naturalmente que havia mais do que um encontro animal por detrás deste lanche. Mas deixámos rolar a razão exposta para alimentar um pouco de risos incontidos.
Ora eu com o Amílcar, ora eu com a Magda, íamos engordando esta história, embutindo-lhe alguns vislumbres mentais do bom que seria que a "panelinha", começada na noite anterior, pudesse dar frutos como sobremesa do lanche. Até que, logo depois de uma chamada telefónica que claramente fazia encontrar, no meio de um algures invisível, as vozes das amigas que se propunham ao encontro da tarde, a Magda, levando-me para a sala com o propósito de pormos a mesa, me aborda dizendo:
-Acho que temos um problema. A Raquel não acha especial interesse no Amílcar, muito embora o veja um rapaz extremamente bem disposto e tudo mais. Ela acha-te muito mais graça a ti.
Caiu-me tudo!
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